
Escrever Do Sal ao Solo não foi apenas um projeto técnico — foi um chamado.
E existe um detalhe fundamental nessa história: eu não sou uma pessoa do campo.
Vivo em um grande centro urbano, com toda a fragmentação, pressa e ruído que fazem parte dessa rotina.
A cidade é feita de partes soltas — agendas, demandas, trânsito, interrupções — onde quase tudo é desconectado dos ciclos naturais.
Talvez por isso, quando me aproximei do tema da pecuária regenerativa, algo me tocou profundamente: a lógica viva dos sistemas, o metabolismo em fluxo, a energia que circula entre animal, solo e ambiente.
E então conheci o Vilton.
E foi ele quem despertou em mim a vontade de escrever este livro.
1. O Vilton é um visionário — e isso acendeu algo em mim
O que primeiro me chamou atenção no Vilton foi a sua capacidade de enxergar onde outras pessoas simplesmente não olhavam.
Ele foi visionário ao trazer o sal rosa do Himalaia para terras brasileiras, não como modismo, mas como hipótese técnica — e começou a testar, testar e testar novamente.
Enquanto muitos discutiam custo, ele observava energia, comportamento e metabolismo.
Enquanto outros buscavam fórmulas prontas, ele buscava perguntas novas.
E enquanto quase ninguém relacionava pureza mineral com constância do rebanho, ele já fazia isso há anos — empiricamente, com sensibilidade e coragem para experimentar.
Essa visão me impressionou.
E me fez pensar:
se alguém no campo está enxergando isso com tanta clareza, qual seria o meu papel nessa história?
2. Meu olhar urbano encontrou no campo um sistema vivo e coerente
Eu vinha de um ambiente urbano e acadêmico, acostumado a analisar sistemas, fluxos, energia e comportamento — mas distante da realidade do campo.
E, justamente por não estar imerso na rotina rural, consegui enxergar algo que talvez só seja visível “de fora”:
o agro funciona como organismo vivo — e alguém precisava explicar isso.
Os conceitos que estudava há anos em ambientes urbanos e científicos estavam diante de mim na pecuária, expressos de forma clara:
- energia disponível
- coerência dos sinais
- ruído metabólico
- comportamento como diagnóstico
- ciclos de devolução
- equilíbrio entre solo e animal
Era como encontrar um padrão escondido à vista de todos.
3. Um ensinamento do doutorado deu sentido a tudo
Durante o doutorado, aprendi algo decisivo:
“A pesquisa é uma colcha de retalhos. Cada fragmento isolado parece sem sentido — até que você encontra o fio que une tudo. O valor está no fio.”
Essa frase voltou à minha mente diversas vezes enquanto conversava com o Vilton.
O campo tinha muitos “retalhos”:
- sal
- metabolismo
- comportamento
- solo
- energia
- constância
- resposta da pastagem
- manejo
- fluxo do organismo
E eu percebi que minha contribuição seria justamente oferecer o fio que une tudo isso.
Esse fio é o raciocínio sistêmico.
4. A complementaridade tornou o livro possível
O livro nasceu da soma de dois mundos:
O olhar do Vilton:
- prática diária
- sensibilidade
- leitura fina do rebanho
- coragem de testar
- visão pioneira sobre pureza mineral
- observação real de campo
O meu olhar:
- ciência
- energia
- sistemas
- análise
- lógica
- compreensão de ciclos
Sozinhos seriam apenas fragmentos.
Mas juntos — com o fio certo — viraram estrutura, sentido e coerência.
5. O campo precisava dessa explicação agora
O agro está mudando.
E está mudando rápido.
Hoje o campo já fala de:
- energia disponível
- solo vivo
- ruído versus coerência
- constância como indicador
- metabolismo como ponte
- sal puro como sinal
- fazenda como organismo único
Mas faltava uma explicação clara, integrada e organizada.
O livro nasceu para preencher esse espaço.
6. Minha motivação final foi simples: fazer sentido do que já estava diante dos olhos
O campo sempre soube que:
- sal puro muda comportamento
- o solo devolve o que recebe
- energia disponível define desempenho
- comportamento fala antes da planilha
- constância é saúde do sistema
O que faltava era organizar esses retalhos com o fio certo.
Foi isso que me motivou a escrever este livro ao lado do Vilton.
Ele trouxe a visão pioneira.
Eu trouxe a estrutura científica.
E juntos, criamos algo que une prática, energia e sistema — com clareza e propósito.





